O dia em que o Mano Brown entendeu Jorge Ben

Uma das maiores vergonhas que eu passei na vida
foi no dia em que eu fui apresentado ao Jorge
Ben. Foi na festa de 10 anos da W/Brasil onde eu
trabalhava. Eu estava passando e o Washington
me pegou pelo braço e subitamente lá estava eu,
de frente para meu grande ídolo Jorge Ben.
Câmera lenta. Washington olha para mim, olha para o
Jorge e diz, numa língua que me pareceu claramente ser
o baleiês do “Procurando Nemo”: “Jorge, esse aqui é o
Rodrigo, ele também toca guitarra.” Sete séculos de
silêncio se passaram naquele breve instante, enquanto o
gênio Babulina tentava conjuminar uma resposta
adequada. Talvez revelar o segredo de sua afinação
diferente? Ou os ritmos secretos que os santos que
incorpora levam até a sua mágica mão direita? E por falar
em mão direita, a minha ainda estava apertando a dele e
resolvi soltar antes que se caracterizasse o assédio sexual.
Dei uma risada maluca — como aquelas que o Rei Roberto
Carlos dá quando perguntam a ele se ele fumou maconha
na época da Jovem Guarda; balbuciei um “muito prazer”
e segui andando atordoado como um pintor de paredes
apresentado a Picasso com
um: “Ele também pinta.”
Jorge Ben está para o Brasil
como Bob Marley para a
Jamaica. Sua música tem
uma identidade que ferve
em ritmo, exuberância e
falta de sentido — e que por
isso mesmo se confunde
com a própria identidade do
Brasil.
E o único descendente direto de Jorge Ben na música
brasileira é o incomparável Mano Brown dos Racionais
MCs. Um artista de verdade num mundo onde artistas são
um misto de assessor de imprensa, figurinista e gerente de
marketing. Um homem que amedronta os homens e
derrete as mulheres. Incoerente, inteligente e
insubstituível. Só que até pouco tempo Mano Brown tinha
um sério problema. Ao contrário do Jorge Ben, de quem ele
é também um devoto fã, Brown sempre cantou a
dificuldade, a revolta, a tristeza e o terror da “Vida Loka”.
Não dava para tocar nenhuma música sua nos dias mais
importantes das nossas vidas: o dia em que nascem nossos
filhos, nosso aniversário ou nosso casamento.
Isso até aparecer na internet sem explicação “Mulher
Elétrica”, sua nova criação e que será a música do verão
2009. Uma obra-prima do pop: dançante, contagiante e
feliz. “Mulher Elétrica” segue a tradição de “O Homem da
Gravata Florida” e “Menina Mulher da Pele Preta” de Ben.
Abre espaço para o maior artista jovem da música
brasileira deixar um legado ainda maior. Finalmente
entendendo que a alegria de Jorge Ben vem do mesmo
lugar de sua própria fúria. Um lugar chamado coração.

RODRIGO LEÃO é diretor de criação da Casa Darwin.
Visite o blog da coluna: popprop.wordpress.com


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